Uma pessoa pode ter o destino escolhido, dinheiro reservado e disponibilidade para viajar, mas adiar o embarque porque não encontrou companhia. Para uma agência de viagens, esse cliente pode representar uma oportunidade de apresentar uma alternativa: viajar em grupo, conhecer novas pessoas e compartilhar experiências.
Para as franquias de turismo, essa demanda pode ser identificada no próprio atendimento. O franqueado consegue perceber quando um cliente demonstra vontade de viajar, mas não encontra alguém com os mesmos interesses, orçamento ou disponibilidade. A partir daí, pode apresentar roteiros em grupo alinhados ao perfil daquele viajante.
As viagens em grupo não precisam reunir apenas famílias ou amigos que já se conhecem. Também podem aproximar pessoas que decidem embarcar individualmente e têm interesses em comum. Um roteiro de gastronomia, fotografia, cultura ou bem-estar, por exemplo, cria um ponto de conexão entre viajantes que talvez não se encontrassem de outra forma.
As mudanças na composição dos lares ajudam a contextualizar esse comportamento. Segundo a PNAD Contínua, do IBGE, os domicílios brasileiros com apenas um morador passaram de 12,2% do total, em 2012, para 19,7%, em 2025. Praticamente um em cada cinco lares do país tem somente um morador.
Morar sozinho não significa estar sozinho, assim como ter um parceiro não garante companhia para todos os projetos. Amigos e familiares podem ter interesses, orçamentos e agendas diferentes. O que importa para o turismo é entender que cada viajante possui uma dinâmica própria e pode buscar diferentes formas de viver uma experiência.
Entre os viajantes 50+, essas mudanças podem abrir novas possibilidades. A aposentadoria pode ampliar a disponibilidade para viajar, enquanto a saída dos filhos de casa pode permitir a realização de planos que antes eram adiados. Há quem procure conhecer novas pessoas, quem queira fazer novas amizades e quem prefira simplesmente contar com uma programação organizada e suporte durante o percurso.
A presença feminina também merece atenção. A Road Scholar, especializada em viagens educativas para adultos mais velhos, informou, em fevereiro de 2025, que aproximadamente 85% dos participantes que viajavam sem companhia eram mulheres. O número mostra a relevância das mulheres entre os viajantes que escolhem embarcar sem acompanhante e reforça a necessidade de pensar experiências que combinem autonomia, segurança e convivência.
Esse movimento também aparece em produtos específicos para mulheres. Em 2025, as expedições exclusivas para mulheres da Intrepid tiveram crescimento de 32% no número de participantes, sendo que 77% delas aderiram sem companhia. Os dados são referentes exclusivamente a essa linha de viagens da empresa e mostram como experiências desenhadas em torno de interesses comuns podem atrair pessoas que chegam individualmente.
Na TZ Viagens, o número de passageiros nas viagens em grupo cresceu aproximadamente 135% em 2025, em relação a 2024, segundo dados internos da rede. Uma parcela significativa desses viajantes aderiu sem companhia. Essa experiência reforça a importância de acolher quem chega sem conhecer os demais participantes e de criar oportunidades de convivência ao longo do roteiro.
Para o franqueado, o primeiro passo pode estar no próprio atendimento. Um cliente que comenta que gostaria de viajar, mas não encontra alguém disponível, pode ser convidado a conhecer roteiros em grupo. A unidade também pode identificar interesses recorrentes entre sua base de clientes e transformá-los em novas sugestões de viagens.
Nesse processo, a clareza é fundamental. O cliente precisa saber como será a programação, quais momentos serão coletivos ou livres, quais serviços estão incluídos e quais são as condições de acomodação. Assim, quem embarca sozinho sabe o que esperar da experiência.
A franqueadora pode dar suporte na construção dos roteiros, na negociação com fornecedores e na organização da operação. O franqueado, por sua vez, conhece o mercado local e mantém o relacionamento próximo com os clientes. Essa combinação permite transformar uma percepção do atendimento em uma oportunidade concreta.
Mas uma viagem em grupo não se resume a colocar pessoas diferentes no mesmo roteiro. A experiência precisa criar espaço para a convivência sem transformar a socialização em obrigação. Uma apresentação antes do embarque, uma liderança preparada para acolher os passageiros e momentos pensados para interação podem facilitar novas conexões.
Também é importante preservar a autonomia. Algumas pessoas vão querer conversar durante todo o roteiro. Outras preferirão aproveitar determinados momentos sozinhas. O papel da agência não é determinar como o viajante deve se relacionar, mas criar um ambiente em que ele possa escolher como viver aquela experiência.
A convivência pode começar antes mesmo da viagem, com informações sobre o perfil do grupo, a programação e os momentos de interação. Depois do retorno, o relacionamento pode continuar. Os interesses identificados durante a viagem ajudam a agência a conhecer melhor seus clientes e a apresentar novas experiências.
Uma amizade não pode ser prometida como parte de um pacote turístico. Mas uma viagem pode criar as condições para que novas conexões aconteçam. Muitas vezes, pessoas que nunca haviam se encontrado compartilham interesses, descobrem afinidades e continuam em contato depois que o roteiro termina.
Para as franquias de turismo, há uma oportunidade em criar experiências nas quais o cliente se sinta acolhido desde a decisão de embarcar. Uma viagem pode começar com uma reserva individual e continuar em novas amizades e planos compartilhados.
Quem viaja sozinho não quer necessariamente viajar só. E o futuro das viagens em grupo também pode começar com quem acreditava não ter com quem viajar.
Paulo Manuel* é fundador e CEO da TZ Viagens
Imagem: Canva
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