Há pessoas que acompanham a Sigbol há dez, 15 anos ou 20 anos. Perguntam sobre os cursos, acompanham as novidades, demonstram vontade de aprender a criar, costurar e muitas vão pessoalmente conhecer de perto a escola. Mas o tempo passa, a decisão é adiada e aquele desejo continua no mesmo lugar: “fica pra depois”.
Para o segundo semestre. Depois o ano que vem. Depois que os filhos crescerem. Depois que o trabalho acalmar. Depois que a situação financeira melhorar. Depois que houver mais tempo.
Em tantos anos trabalhando com educação e moda, comecei a perceber que esse comportamento diz muito menos sobre costura do que sobre a maneira como organizamos a própria vida. Somos disciplinados com aquilo que é obrigação e surpreendentemente pacientes com aquilo que desejamos realizar e não damos o primeiro passo.
Trabalhamos, pagamos contas, cumprimos horários, cuidamos da família. Já aquilo que não julgamos ser urgente, mas poderia tornar a vida melhor e mais interessante, frequentemente é empurrado para um futuro ideal em que finalmente teremos tempo, dinheiro e disposição ao mesmo tempo.
O problema é que esse futuro pode demorar dez ou 15 anos e, muitas vezes, nunca chegar. Quando não tomamos a iniciativa colocamos em risco exatamente o nosso futuro.
E há uma discussão bastante concreta por trás disso. Um estudo publicado em 2023, na revista científica Nature Medicine, analisou dados de 93.263 pessoas com 65 anos ou mais, em 16 países, e encontrou associação entre manter um hobby e maiores níveis de felicidade e satisfação com a vida, melhor percepção da própria saúde e menos sintomas depressivos.
Os pesquisadores acompanharam participantes de cinco grandes estudos longitudinais por períodos de quatro a oito anos. Apesar das diferenças culturais entre os países analisados, os resultados foram relativamente consistentes, reforçando a discussão sobre o papel que atividades realizadas por prazer podem desempenhar ao longo do envelhecimento.
Talvez tenhamos desaprendido um pouco esse conceito.
Vivemos um período em que quase tudo parece precisar ser produtivo ou dar resultados imediatos. Se alguém aprende a cozinhar bem, se começa um trabalho manual, se aprende a criar moda ou costurar, logo surgem os questionamentos de quando irá transformar aquilo em negócio e isso não demora para aparecer.
Mas nem tudo precisa virar negócio.
Na Sigbol, conhecemos pessoas que aprenderam costura e moda e construíram carreiras, marcas e fontes de renda a partir desse conhecimento. Mas conhecemos também quem queria simplesmente fazer uma roupa para si ou presentear alguém desenvolver uma habilidade criativa ou reservar algumas horas da semana para uma atividade que lhe de prazer e qualidade de vida.
Para quem está à frente de uma empresa ligada à educação, há uma leitura importante nesse comportamento. Nem toda decisão de consumo nasce de uma necessidade objetiva. Algumas estão relacionadas às experiências que uma pessoa deseja viver e até à versão de si mesma que gostaria de construir.
Isso muda a maneira como determinados negócios precisam compreender seu público. Em segmentos ligados à educação, criatividade e lazer, a concorrência não acontece apenas pelo dinheiro do consumidor. Há uma disputa ainda mais difícil: por uma parcela do tempo que ele aceita dedicar a si próprio.
Em uma sociedade mais longeva, essa questão tende a ganhar relevância. Viver mais significa também ter mais espaço para aprender, descobrir interesses e começar atividades em diferentes momentos da vida. A ideia de que existe uma idade certa para iniciar algo novo começa a fazer cada vez menos sentido.
Talvez, por isso, eu estranhe quando alguém diz que está velho demais para começar.
Imagine uma pessoa aos 40 anos dizendo que gostaria de aprender a costurar, mas acha que já passou da idade. Se começar hoje, quando completar 60 terá 20 anos de experiência em algo que gosta.
Se não começar, completará 60 anos do mesmo jeito que está hoje.
A passagem do tempo não está em discussão. O que podemos escolher é o que fazemos enquanto ele passa.
Depois de conviver por tantos anos com pessoas que carregam a vontade de aprender algo novo, passei a acreditar que a pergunta mais importante talvez não seja “será que ainda dá tempo?”.
É outra: quantos anos mais queremos passar esperando a hora certa para começar?
Aluizio de Freitas* é diretor da Sigbol
Imagem: Canva
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