A relação entre pais e filhos mudou — e essa transformação também pode ser percebida no guarda-roupa masculino. Se, por muito tempo, a figura paterna esteve associada a um estilo mais formal e distante, hoje, a moda acompanha uma dinâmica familiar marcada por maior proximidade, participação e troca de referências. Vestir-se, nesse contexto, também pode ser uma forma de compartilhar interesses, criar memórias e fortalecer vínculos entre diferentes gerações.
Essa mudança acompanha uma paternidade mais presente no cotidiano dos filhos. O mercado da moda já responde a esse movimento com produtos e coleções que incorporam o universo paterno, como slings desenvolvidos para homens, camisetas que celebram a paternidade e propostas de “tal pai, tal filho”, transformando a roupa em uma extensão dessa relação.
Mais do que reproduzir visuais semelhantes, essas escolhas revelam uma disposição para dividir experiências e ocupar, juntos, espaços que antes pareciam pertencer exclusivamente ao universo infantil ou jovem.
Um exemplo recente dessa dinâmica aconteceu durante um show de Harry Styles, quando pais e filhos chamaram a atenção ao aparecerem no evento com looks coordenados. Entre eles estavam o administrador Alexandre Guerra e sua filha, a publicitária Beatriz Guerra. Inspirada na estética do cantor, Beatriz sugeriu que os dois usassem camisetas com frases complementares.
A proposta foi rapidamente aceita pelo pai, que acompanha a filha no universo musical desde a época do One Direction e, posteriormente, também se tornou admirador da carreira solo de Harry Styles. Nesse caso, a roupa não foi apenas uma escolha estética: tornou-se parte de uma experiência construída entre os dois.
Essa transformação não aparece apenas em fenômenos de comportamento ou nas respostas do mercado. Eu mesmo percebo essa mudança dentro de casa.
Quando era criança, minha principal referência de estilo era meu pai. Executivo, ele usava terno e gravata diariamente. Embora tivéssemos uma excelente relação, a figura paterna ainda ocupava um lugar diferente na dinâmica familiar. Hoje, aos 60 anos, percebo uma inversão interessante nessa troca: meu filho, de 13 anos, inspira-se em algumas peças do meu estilo, enquanto eu também passei a incorporar referências que vêm dele.
Acompanho, ao lado dele, tendências da moda jovem, como as calças mais largas e as camisetas oversized, e algumas dessas peças passaram a fazer parte do meu próprio guarda-roupa. Ao mesmo tempo, ele pega roupas minhas emprestadas, como uma jaqueta de couro. É uma troca constante, que mostra como a relação entre pais e filhos também se transformou na maneira de construir identidade por meio da moda.
Essa via de mão dupla é um dos reflexos mais interessantes da paternidade contemporânea. Durante muito tempo, a influência estética acontecia principalmente em uma direção: os filhos observavam os pais e reproduziam seus códigos de vestir. Hoje, essa relação é mais horizontal. Pais continuam sendo referências, mas também se abrem para tendências, artistas e comportamentos apresentados pelos filhos, sobretudo na adolescência.
A moda passa, assim, a registrar uma transformação que ultrapassa a estética. Uma camiseta pode guardar a lembrança de um show; uma jaqueta emprestada pode representar a troca entre gerações; uma tendência pode se tornar um ponto de encontro entre pai e filho.
A nova paternidade também se veste dessa maneira: com mais abertura para experimentar, aprender e compartilhar. No fim, mais do que combinar roupas, pais e filhos estão encontrando novas formas de combinar experiências.
Aluizio de Freitas* é diretor da Sigbol
Imagem: Canva
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