O setor de franquias brasileiro entra em 2026 em um novo estágio de desenvolvimento, marcado por maior maturidade estratégica, eficiência operacional e uso cada vez mais prático da tecnologia, incorporando a inteligência artificial (IA) de maneira mais intensa no dia a dia das redes. As tendências que devem nortear o setor ao longo do ano foram destacadas por algumas das lideranças da Associação Brasileira de Franchising (ABF), refletindo movimentos já observados no mercado e captados pelas pesquisas da entidade.
Para Tom Moreira Leite, presidente da associação, o setor caminha para um novo ciclo, marcado por crescimento mais qualificado e foco consistente em eficiência e rentabilidade. Ele observa que a evolução do franchising passa menos pela abertura acelerada de unidades e mais pela consolidação de operações maduras, orientadas por dados, tecnologia e experiência do cliente.
“Em 2026, veremos redes mais disciplinadas operacionalmente, com uso prático da tecnologia, integração entre canais físicos e digitais e maior profissionalização dos franqueados, aumento do número de franqueados multiunidades, rentabilidade de longo prazopor meio de capex mais otimizados e aumento de lucratividade no nível de unidade franqueada”, destaca. Ainda de acordo com o presidente, “fusões e aquisições (M&As na sigla em inglês) devem se intensificar em 2026, impulsionadas pela busca por escala, eficiência operacional, aceleração da digitalização e maior competitividade global das redes”.
Pesquisa da ABF sobre o uso da inteligência artificial pelas redes de franquias, realizada no ano passado, indica que chatbots e assistentes virtuais são as aplicações de IA mais comuns, seguidos por ferramentas de IA generativa para textos, e que os principais ganhos relatados pelos respondentes incluem aumento de produtividade (73%) e automação de tarefas repetitivas (63%).
Na visão de Decio Pecin, vice-presidente da ABF, a tecnologia assume um papel definitivamente pragmático no franchising, com impacto direto nos resultados das operações. O executivo destaca que a IA deixa de ser apenas uma promessa e passa a integrar o cotidiano das redes, apoiando decisões, processos e a experiência do consumidor. “A transformação não é sobre tecnologia por si só, mas sobre eficiência, melhor uso de dados, decisões mais rápidas e experiências mais relevantes, tudo isso com um objetivo muito claro: aumentar a rentabilidade das operações e a sustentabilidade das redes. Num mundo cada vez mais high tech, não podemos deixar de ser high touch. A tecnologia, e especialmente a IA, não substitui o fator humano, ela o potencializa”, observa.
Ainda segundo Pecin, treinamento de equipes, atendimento como diferencial competitivo e experiências que integrem o físico e o digital continuarão sendo determinantes para o sucesso das franquias. “O futuro do franchising passa, portanto, por redes mais eficientes, que usam tecnologia para apoiar pessoas, fortalecer relações e garantir operações financeiramente equilibradas. Crescer, sim, mas crescer com qualidade, rentabilidade e visão de longo prazo," observa.
Ao observar os movimentos estruturais do setor, Cristina Franco, presidente do Conselho da ABF, ressalta que o crescimento do franchising brasileiro tem se apoiado em vetores cada vez mais estratégicos e conectados às novas dinâmicas de consumo. Segundo ela, a expansão para além dos grandes centros urbanos, aliada ao avanço da digitalização e à intensificação de parcerias entre marcas, vem redesenhando o modelo de negócios das redes. “A interiorização se consolida como uma estratégia estruturante para o crescimento sustentável, enquanto a digitalização passa a ser pilar do franchising, com operações mais integradas e omnichannel. Ao mesmo tempo, collabs e parcerias estratégicas ganham protagonismo como instrumentos de inovação, geração de valor compartilhado e conexão mais relevante com o consumidor”, afirma.
De acordo com dados da entidade, o franchising já está presente em 69% dos municípios brasileiros, o que corresponde a 3.828 cidades com pelo menos uma unidade de franquia. Este percentual que cresceu de 61% em 2024 para 69% no ano passado.
Ao analisar as transformações no comportamento do consumidor e seus impactos sobre o franchising, Claudia Vobeto, diretora de Capacitação da ABF, destaca que a adaptabilidade deixa de ser diferencial e passa a ocupar o centro da estratégia das redes. Para ela, o maior risco está na acomodação a modelos que funcionaram no passado, em um contexto em que consumidores se tornam mais ativos, visuais e orientados por propósito e significado.
“Em 2026, não basta escalar mantendo fórmulas antigas. As marcas precisam testar, aprender rápido e construir narrativas que inspirem descoberta, fortaleçam identidades autênticas e conectem o digital à experiência na unidade franqueada, com apoio de dados e inteligência artificial”, pontua. Segundo Claudia, a tecnologia deve estar a serviço da experiência humana, enquanto a verdadeira métrica de sucesso passa a ser a capacidade da marca de gerar histórias que as pessoas queiram compartilhar. “As redes que terão protagonismo serão aquelas que escutam o consumidor, aprendem com ele e evoluem com propósito, antecipando movimentos em vez de apenas reagir a eles”, salienta.
No campo do posicionamento das marcas e da dinâmica das redes, Rodrigo Abreu, diretor de Marketing e Comunicação e da Comissão de Sustentabilidade da ABF, observa que o franchising avança para um modelo mais sofisticado, orientado à eficiência, à sustentabilidade, à maturidade operacional e às relações dentro das redes. Segundo Abreu, as franqueadoras assumem um papel cada vez mais ativo na coordenação e execução de serviços estratégicos, consolidando o sistema como uma verdadeira plataforma de governança e produtividade.
“Esse movimento reduz a complexidade operacional, gera escala real para o franqueado e fortalece a rede como um todo. Ao mesmo tempo, a diversificação de portfólio passa a ser central para ampliar receitas, aumentar a recorrência e minimizar riscos e sazonalidades. Paralelamente, vemos a evolução do perfil do franqueado, com maior profissionalização, foco em liderança local e governança, além de relações mais colaborativas, integradas, transparentes e orientadas ao longo prazo entre franqueador e franqueado”, afirma.
Já Juarez Leão, membro do Conselho da Associação, avalia que o franchising brasileiro atravessa um ponto de inflexão relevante, entrando em uma fase de maior maturidade estratégica. Para ele, o setor passa a priorizar eficiência, margem e geração de caixa, em detrimento da expansão acelerada. “Redes sem domínio operacional, padronização e controle de custos tendem a desacelerar ou perder relevância. O franqueado de 2026 busca previsibilidade, dados confiáveis e suporte efetivo, não promessas. A profissionalização torna-se condição básica de sobrevivência. O franqueador assume definitivamente o papel de CEO de um ecossistema, com foco em governança, performance média e saúde financeira da rede. Tecnologia deixa o discurso e impacta diretamente o P&L”, ressalta.
Ainda de acordo com o executivo, as franquias passam a competir também com negócios próprios e modelos digitais eficientes. “Estruturas inchadas e taxas pouco claras perdem espaço. Penso que 2026 será um ano de seleção natural, consolidando modelos sólidos e expondo os frágeis”, conclui.
Ao acompanhar de perto essas transformações e apoiar o desenvolvimento sustentável do setor, a ABF reforça seu papel como articuladora de conhecimento, diálogo e boas práticas no franchising brasileiro. Para a entidade, entender tendências é tão importante quanto traduzi-las em ações concretas que fortaleçam redes, franqueadores e franqueados em diferentes estágios de maturidade.
Nesse contexto, Carol Graciani, diretora-executiva da entidade, destaca a atuação estratégica da ABF. “Nosso papel é antecipar movimentos, promover conexões qualificadas e oferecer inteligência ao setor e ao mercado, por meio de estudos, eventos, capacitação e representação institucional. Ao mapear tendências e estimular debates consistentes, a ABF contribui para que o franchising brasileiro continue inovador, competitivo e alinhado às novas demandas do mercado e da sociedade”, finaliza.
Imagem: Sua Franquia