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Empreendedorismo no Vale do Silício prioriza modelo de negócio antes da escala

Professor de Stanford afirma que validar modelo e controlar aquisição reduz o risco das startups

Empreendedorismo no Vale do Silício prioriza modelo de negócio antes da escala
Redação Publicado em 24 de Fevereiro de 2026 às, 09h00. Atualizado em 24 de Fevereiro de 2026 às, 09h00.

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Em boa parte do mundo, falhar é associado à incapacidade de execução. No Vale do Silício, o fracasso é vistoo como etapa de validação. A diferença, segundo Bret Waters, professor da Universidade de Stanford, está no método. Para ele, empreendedorismo não é impulso e, sim, processo estruturado.

Waters palestrou a empresários brasileiros em visita à univresidade. Organizada pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), a delegação reúne executivos e empresários do ecossistema de franquias, que viaga aos Estados Unidos para participar de visitas técnicas em São Francisco, onde está Standford, e dos três dias da Convenção Anual da International Franchise Association (IFA 2026).

O acadêmico provocou a audiência ao afirmar que a maioria das ideias originais fracassa. Para ele, o que separa negócios que sobrevivem daqueles que desaparecem não é a criatividade inicial, mas a disciplina de testar hipóteses, ajustar modelo e medir resultados antes de buscar escala. “Ideias são baratas, execução é difícil”, disse.

A frase sintetiza o ambiente competitivo do Vale do Silício. Não basta ter uma proposta inovadora. É preciso provar que existe mercado, que o produto resolve um problema real e que o modelo de negócio sustenta crescimento.

Empreendedorismo começa pela validação do problema

Waters defende que grandes startups nascem da identificação de um problema relevante. O erro recorrente, segundo ele, é desenvolver produto antes de confirmar demanda.

Empreendedores experientes investem tempo em conversas com clientes potenciais, testar protótipos e validar hipóteses antes de comprometer capital relevante. O objetivo é alcançar o chamado product-market fit, isto é, o alinhamento entre o que o mercado quer e o que a empresa entrega.

Sem essa etapa, a probabilidade de desperdício aumenta. O professor relatou que, no início de sua trajetória como empreendedor, levantou US$ 5 milhões para desenvolver um software que considerava promissor. Dois anos depois, ao lançar o produto, descobriu que os clientes não viam valor suficiente na solução. Da lição aprendida, resultou uma frase de sabedoria para os empreendedores: antes de desenvolver produto, é preciso desenvolver cliente.

Modelo de negócio define a sobrevivência da startup

No empreendedorismo do Vale do Silício, o modelo de negócio funciona como estrutura operacional. Waters define como sendo a lógica pela qual a empresa cria, entrega e captura valor. Criar valor significa resolver um problema real. Entregar valor envolve canais e distribuição. Capturar valor está diretamente ligado à receita e margem.

As startups que não estruturam claramente esse processo enfrentam dificuldades para atrair capital e sustentar crescimento. De acordo com o palestrante, um dos principais erros de fundadores é subestimar o ambiente competitivo, pois a concorrência não se limita a empresas similares, mas inclui qualquer alternativa que resolva o mesmo problema. Por isso, o professor defende a tese de que para empreender é necessário entender onde o negócio se posiciona nesse cenário e qual diferencial é sustentável.

Custo de aquisição e valor do cliente determinam escala

Entre os indicadores que mais preocupam investidores no Vale do Silício está a relação entre CAC e LTV, siglas que significam, respectivamente, custo de aquisição de cliente e valor do cliente ao longo do tempo. Entender o que representam é bastante simples.

Se o CAC aponta que custa mais adquirir um cliente do que o retorno gerado por ele, medido pelo LTV, o modelo não se sustenta. Waters explica que os negócios considerados saudáveis operam com relação mínima de três para um entre valor do cliente e custo de aquisição. Em operações de alto crescimento, investidores preferem múltiplos ainda maiores.

Além disso, o tempo de retorno também é analisado. Quanto mais rápido o capital investido em aquisição retorna ao caixa, menor o risco financeiro.

Mas muitas startups fracassam, e não é por falta de clientes, explica Waters. As novas empresas acabam gastando demais para conquistá-los. Se escalarem um modelo deficitário, somente o prejuízo se amplia.

O que o Vale ensina ao empreendedor brasileiro

Ao comparar culturas empreendedoras, Waters observou que, em alguns países, o fracasso fecha portas. No Vale do Silício, pode fortalecer uma nova captação, desde que o fundador demonstre aprendizado concreto.

“Eu sempre acho curioso que o Vale do Silício seja o único lugar onde você pode apresentar seu projeto a um investidor e contar sobre suas três startups anteriores que fracassaram, e eles gostarem disso”, afirmou Waters em sua apresentação.

Investidores não tomam qualquer risco, portanto, a lógica é pragmática. O Vale aprecia a experiência adquirida de quem já enfrentou o mercado real, testou hipóteses e corrigiu a rota. São mais estruturados frente aos desafios.

O ambiente, no entanto, não é indulgente com improvisação, e os empreendedores s que não se reposicionarem após um fracasso serão vistos como amadores. 

Para Caroline Bittencourt, sócia e diretora de Insights & Relacionamento do Grupo Bittencourt, essa abordagem aproxima o empreendedorismo do Vale do Silício da lógica aplicada ao franchising. "Redes estruturadas operam com modelo validado, processo padronizado e métricas claras de retorno. O risco não desaparece, mas é reduzido por método", pontua. Em outras palavras, empreender sem validação amplia incerteza, enquanto o modelo testado aumenta a previsibilidade.

Empreendedorismo exige disciplina de execução

No encerramento da palestra, Waters reforçou que o empreendedorismo não é ato impulsivo, mas construção progressiva. Para o investidor, a mensagem deixada pela apresentação foi a de que o sucesso não está no discurso inovador, mas na validação prática do modelo de negócio, na eficiência da aquisição de clientes e na disciplina financeira, transformando aprendizado em método replicável e escalável.

Com informações de Caroline Bittencourt*, sócia e diretora de Insights & Relacionamento do Grupo Bittencourt
*A executiva viaja com a delegação da ABF aos Estados Unidos, onde cumpre agenda de visitas técnicas em São Francisco e participa da IFA 2026 em Las Vegas.

Imagem: ABF/Divulgação

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