Se alguém considera que, para operar uma franquia educacional, é preciso apenas ter vocação para ensinar, talvez se esqueça de que, sem gestão, margem e escala, não há qualidade duradoura. E, sem qualidade, nenhum modelo se sustenta. Para operar uma franquia no segmento de educação é indispensável ter lógica empresarial, e isso fica evidente nos dados mais recentes da Pesquisa de Desempenho do Franchising – 3º trimestre de 2025, da Associação Brasileira de Franchising (ABF).
No período, o faturamento do segmento de franquias de Educação chegou a R$ 4,34 bilhões no trimestre (2,5%) e a R$ 15,97 bilhões no acumulado anual (4,2%), com avanço de 9,8% no número de operações. O dado indica não apenas crescimento econômico, mas também expansão das redes e maior capilaridade do modelo educacional no País.
Mas o que explica, afinal, essa trajetória consistente em um setor que mudou tanto nos últimos anos? Esse avanço não aconteceu por acaso. Ele é resultado de decisões tomadas ao longo do tempo, como investimentos mais robustos em tecnologia educacional, profissionalização da gestão, maior atenção à formação dos franqueados e diversificação dos formatos de oferta. Em outras palavras, o crescimento veio acompanhado de operações mais estruturadas, processos mais claros e maior disciplina na execução.
Esse movimento estrutural nas operações ocorreu em paralelo a uma transformação igualmente relevante no comportamento do aluno, que passou a influenciar de maneira decisiva a forma como os serviços educacionais são desenhados e entregues. O mesmo estudo mostra que o ensino presencial ampliou sua participação, passando de 50% para 56% das matrículas, enquanto o digital síncrono, com aulas ao vivo, também ganhou espaço. Já os modelos híbridos e assíncronos perderam relevância relativa. Olhando de perto, o dado sugere menos uma rejeição à tecnologia e mais uma busca por experiências completas, que combinem flexibilidade, interação e acompanhamento próximo.
A capacidade de integrar ambientes físicos e recursos digitais com consistência ajuda a explicar por que algumas marcas conseguiram atravessar períodos de transformação com mais solidez do que outras. Operações que mantiveram padrão pedagógico, experiência uniforme e comunicação clara com alunos e famílias foram justamente as que preservaram sua base, expandiram participação e fortaleceram reputação.
Não por acaso, os grupos que apresentam melhor desempenho hoje são aqueles que conseguem unir leitura atenta de mercado, investimento contínuo em tecnologia e suporte efetivo aos franqueados, e diversificam sua oferta ao mesmo tempo em que ampliam suas linhas de receita. Ao ajudar as unidades a responder com rapidez às mudanças no perfil do consumidor, essas organizações reduzem riscos operacionais, ampliam oportunidades de resultado e criam um ambiente mais favorável para decisões de longo prazo.
Tudo isso também elevou o grau de exigência sobre quem estrutura o sistema como um todo. Crescer deixou de significar apenas abrir novas unidades. Passou a envolver a construção de operações mais robustas, com sistemas integrados, formação permanente de professores e franqueados, padronização efetiva de processos e uso inteligente de dados para orientar escolhas. O modelo evoluiu de um simples formato de expansão para algo mais próximo de um ecossistema educacional.
É justamente nesse ponto que propósito e rentabilidade deixam de parecer conceitos opostos. Uma operação financeiramente equilibrada consegue reinvestir, atualizar metodologias, desenvolver equipes e aprimorar a experiência do aluno. Ao mesmo tempo, a capacidade de gerar resultado para o franqueado depende diretamente da qualidade percebida por quem está em sala de aula. Uma dimensão sustenta a outra.
O desafio das franquias educacionais, portanto, não é apenas continuar crescendo, mas decidir como crescer: escalar sem perder qualidade, inovar sem confundir o aluno, ampliar portfólio sem diluir a marca e profissionalizar a gestão sem perder a proximidade com quem está na ponta da operação. Não é simples, mas é exatamente aí que se separa quem acompanha o mercado de quem puxa o mercado.
No fim das contas, franquia educacional não se trata de abrir mais portas, mas sim de construir modelos que avancem com o tempo e se adaptem às mudanças de comportamento e às próximas ondas tecnológicas. Quem entender isso antes não apenas irá capturar os melhores resultados — ajudará a definir o futuro do setor.
Eduardo Murin* é COO do CNA+
*O artigo publicado não reflete, necessariamente, a visão o Portal Sua Franquia, sendo, as opiniões expressas, de responsabilidade do autor
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