Durante muito tempo, decisões no setor de franquias foram guiadas principalmente por experiência, sensibilidade de mercado e proximidade com a operação. Segundo dados apresentados pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), em 2025 o franchising brasileiro ultrapassou, pela primeira vez, o marco de R$ 300 bilhões em faturamento. Com crescimento nominal de 10,5% em 2025, o setor tem reforçado seu protagonismo na economia brasileira e segue como importante gerador de oportunidades, o que torna o cenário cada vez mais competitivo, com consumidores exigentes. Por isso, basear-se em dados ao tomar decisões não é mais um diferencial e agir pela intuição se tornou ineficaz. Pensar em dados hoje é obrigação para qualquer rede que deseja crescer com consistência.
Isso acontece porque o franchising vive um momento de amadurecimento. Antes, as redes operavam com poucos pontos de venda e agora precisam administrar dezenas ou centenas de unidades espalhadas pelo país. Por isso, manter padrão de atendimento, eficiência operacional e rentabilidade exige um nível de controle muito maior sobre o que acontece dentro de cada loja. É nesse ponto que os dados passam a desempenhar um papel estratégico.
No setor de alimentação, por exemplo, dados de consumo no salão revelam padrões valiosos sobre o comportamento do cliente: quais produtos têm maior saída, quais combinações aumentam o ticket médio, em quais horários a demanda cresce e quanto tempo o cliente permanece na operação. São essas informações que permitem ajustes mais rápidos em cardápios, promoções e estratégias de venda.
O impacto é ainda maior em redes franqueadoras, em que os dados, quando bem estruturados, possibilitam identificar diferenças de performance entre unidades, mapear boas práticas e replicar modelos que funcionam melhor em toda a rede. O que antes era aprendizado local se torna inteligência coletiva e reduz riscos para essas operações. Quando um franqueador consegue visualizar com clareza o desempenho do time, ele consegue antecipar problemas, apoiar unidades com dificuldades e direcionar investimentos com mais segurança.
Essa capacidade de leitura da operação também se torna fundamental em um cenário de crescimento acelerado das redes. Escalar um negócio mantendo padrão de qualidade sempre foi um dos maiores desafios do franchising e a tecnologia e os dados ajudam justamente a garantir consistência, mesmo em redes com grande capilaridade.
Ao mesmo tempo, a digitalização do ponto de venda ampliou significativamente o volume de informações disponíveis para análise. Sistemas de pedidos digitais, autoatendimento e plataformas integradas de gestão passaram a gerar dados em tempo real sobre consumo, comportamento e eficiência operacional.
Nesse sentido, a inteligência artificial também passa a ser considerada. Um estudo conduzido pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), mostra que 37% das franqueadoras encontram-se atualmente na fase de testes da tecnologia (o maior percentual entre os respondentes) e outras 22% já utilizam IA de forma não estruturada, enquanto 26% afirmam possuir processos estruturados de uso. O estudo também aponta que 40% das marcas ainda estão explorando possibilidades, experimentando ferramentas e mapeando oportunidades. Já 34% das redes atuam em um estágio intermediário, obtendo ganhos pontuais, mas ainda sem uma transformação profunda em seus modelos de negócio.
O resultado é um novo tipo de operação: mais conectada, mais previsível e mais preparada para crescer. Isso não significa que a experiência do franqueado ou a sensibilidade de mercado deixaram de ser importantes. O que mudou é que essas percepções agora podem (e devem) ser validadas por dados concretos.
No fim das contas, o franchising continua sendo um negócio de pessoas, relacionamento e execução no ponto de venda. Mas as redes que conseguem combinar essa cultura empreendedora com inteligência baseada em dados saem na frente. Em um mercado cada vez mais competitivo, decidir com base em dados deixou de ser um luxo tecnológico. Tornou-se uma condição essencial para crescer com consistência, escala e rentabilidade.
Isaac Paes é CMO da Goomer
Imagem: Freepik
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